17 de dez de 2008

A SÍNDROME DA DESCONFIANÇA

Por Cassildo Gomes Rodrigues de Souza

Não sei o que anda acontecendo comigo, mas penso de maneira totalmente diferente de como pensava antes. Talvez seja resultado da falta de criatividade, da ausência de coisas que me façam encarar a vida de outra maneira. Tenho adotado uma visão talvez até meio radical, mas é fato: Todas as vezes que alguém é questionado, começo a desconfiar de que esse alguém tem razão naquilo em que o criticam.

Na minha cabeça, a ausência de conhecimento e de análise tem sido aspectos marcantes na contemporaneidade. Posso até estar errado, mas ninguém tem muita preocupação com a qualidade hoje em dia. Quem procura ser seletivo, é tachado de "metido", arrogante, prepotente. Parece que fizeram um pacto com tudo quanto existe de ruim e sem fundamento em detrimento das coisas que nos poderiam conferir mais conteúdo e consistência. Se fôssemos citar exemplos, poderíamos falar sobre política, educação, música e cultura em geral e até mesmo o futebol. Quanta qualidade se perdeu!

Se as pessoas que procuram selecionar aquilo que lhes parece mais adequado estão erradas, então não sei que caminho seria o certo. O fato é que constantemente somos bombardeados por modismos que, meteoricamente, acabam para dar lugar a outro. Enquanto isso, os aspectos que realmente apresentam qualidade dormem num ostracismo somente desvendado por aqueles que se "atrevem" a redescobri-los, mesmo enfrentando o mundo inteiro. O curioso é que a humanidade está inclinada a supervalorizar certas novidades e são elas as que aparecem mais, vendem mais, atraem mais. De novo, questiono se essa supremacia da quantidade sobre a qualidade.

O que tem consistência, entretanto, resiste ao tempo e à mediocridade. Temos de analisar as coisas de maneira consciente e global, sem nos influenciarmos pela propagação de mídia que, em grande parte, utiliza-se de argumentos que não convencem mas que "preenchem" as mentes por um certo período de tempo. O que é bom, independentemente de quantidade, prevalece em qualquer segmento. Só para lembrar, a obra de Machado de Assis, a musicalidade dos Beatles e de Bob Dylan no exterior, de João Gilberto, Tom e Vinícius aqui no Brasil, a habilidade de Oscar Niemeyer, a lucidez de Ariano Suassuna, entre outros exemplos sustentam a tese de que o aspecto qualitativo nunca se curvará ao quantitativo.

Continuarei desconfiando sempre que algo for demasiadamente enaltecido, o que não significa, necessariamente, que as coisas mais visíveis e atraentes sejam ruins. O fato é que as modas gastas apreciadas por uma maioria de alienados não podem ser jamais consideradas valiosas apenas por chamarem mais a atenção. Nesse caso, diria que esse caminho seria uma espécie de contraponto à idéia da quantificação, do pensamento de todo mundo, do que a massa decide ser bom ou ruim. Essa análise deve partir, com consciência, de cada um, alheio a números isolados, sem crítica alguma.

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