4 de set de 2015

TOLERÂNCIA POLÍTICA

Tolerância 1000

                                                                                                                          
 Cassildo Souza

Observando a situação do país estes dias, veio-me a sensação de que – como povo – somos muito passivos, tolerantes com os atos de corrupção, conformados demais com os descasos que a nação atravessa ao longo da história. Somos filhos da cegueira eterna, da mesmice política que nos toma conta. Não conseguimos enxergar o óbvio. As décadas transformam-se em séculos e seguimos sofrendo, sofrendo, sofrendo, sob as mais esdrúxulas justificativas do tipo “o Brasil é assim mesmo”, “O Brasil não tem solução”, “Fulano rouba, mas faz.”

Lastimável.  Nossa conivência com atos inescrupulosos chega ao nível máximo, numa espécie de relação estranha, já que tudo isso recai sobre nossos ombros. Chego a pensar (tenho quase certeza disso) que existe cumplicidade com tais atitudes, numa espécie de relação mútua, como se esperássemos o dia em que qualquer um de nós cometerá um delito dessa natureza e, portanto, estará isento. Uma relação de troca no mais legítimo estilo de “um dia poderá ser eu”. “E caso eu esteja na mesma situação, também quero ser absolvido”. Duro admitir tamanho absurdo, mas não espanta que assim seja, em se tratando de Brasil.

Agonizamos na educação, na segurança pública, no respeito aos direitos civis; na saúde – pública ou privada – a situação precária só progride; a infraestrutura de algumas cidades não garante o fluxo das construções ou dos automóveis; a falta de recursos hídricos só torna iminente a existência de um colapso, mesmo sendo nosso país um dos mais ricos hidricamente do planeta. E o que fazemos? Aceitamos calados e quando ameaçamos usar nossa voz, apenas o fazemos denegrindo a imagem daqueles que pensam diferente de nós. Sempre fugimos ao foco do debate que deveria haver, porque há também uma mentalidade politiqueira que leva ao fanatismo.

Discutir sobre os problemas do país não pode confundir-se com brigar por facções. Isso alimenta a nossa passividade. Somos atrasados ao ponto de inverter a situação, considerando-nos dependentes dos políticos, quando eles é que devem depender de nós para conquistar seus cargos. E depender de nós significa estarem comprometidos com nossas agendas, cientes de que se assim não fizerem, nós os excluiremos de nossos contatos, de nossos possíveis representantes. Sonhar é muito bom. Estamos muito distantes disso. Nossa tolerância é espantosa, porque ela está ligada intimamente a nossa cumplicidade, nossa conivência histórica. Criticamos nos políticos muitas atitudes que nós, no dia a dia, cometemos.

As gerações atual e futura não podem desanimar; pelo contrário, elas é que poderão contribuir para que tal mentalidade seja banida de uma vez por todas de nossas cabeças; para que nos esqueçamos das pelejas partidárias, do clientelismo barato que só prejudica a busca de soluções concretas para tais problemas. Todos esses fatos nos tornam “hipertolerantes” com a elite que domina o Brasil – de qualquer que sejam as cores partidárias. O pacote é completo, e nosso erro é justamente querer eleger como culpado apenas um lado, visto que todos os pólos de nossa política – em meu questionável entender – não se diferem muito um do outro.

Nossa “Tolerância 1000” certamente é considerada um aspecto favorável a quem “comanda” a nação. E quando digo “comanda”, estou me referindo aos 3 Poderes: executivo, legislativo e judiciário (propositalmente com iniciais minúsculas). Os membros de tais representações conhecem o povo de sua nação e, por isso, estão cada vez mais acomodados em atender aos problemas que nos atingem. Nossa preocupação diária é com as baladas que virão, com a próxima novela das 9 ou com quem será campeão brasileiro. Estudar, refletir e cobrar melhorias nunca está em nossa agenda pessoal.


O Brasil vai bem, obrigado. Desde 1500.

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