27 de mai de 2014


Por que não praticar redação, mesmo em preparação ao ENEM?

Cassildo Souza

                Pelos propósitos a que procura atender, a prática de produção textual escrita promovida pelos cursos preparatórios ao ENEM deveria receber mais adesões dos alunos, a cada edição, posto que o embasamento adquirido ao longo da preparação constituiriam a motivação para escrever esses textos. Não é o que se observa nas muitas instituições que atuam nesse segmento. Por mais que se ofereça esse suporte nas mais variadas formas, muitos alunos ainda insistem em ignorar essa importante etapa da preparação. Os resultados ao final do ano tendem a castigar drasticamente esses indivíduos.

                Os números da estatística nacional para a redação do Exame Nacional do Ensino Médio são assustadores. Apenas 0,9% de todos os alunos que fizeram a prova em 2013 obteve nota igual ou superior a 901 pontos. Quando se consideram os alunos que obtiveram uma nota na faixa de 701 a 1000 pontos, intervalo que pode colocar os candidatos em cursos mais qualificados, o percentual vai a apenas 10,3%. Juntando-se a esse dado o fato notório de que os alunos brasileiros mal leem e menos ainda escrevem, podemos entender que as coisas se encaixam. Os alunos em cursinho preparatório – o qual deveria ser encarado com uma revisão de assuntos pontuais – já vêm desmotivados desde sua formação básica, na qual muitos não são estimulados a desenvolver tal competência.

                O fato é intrigante, pois se não existe uma política educacional séria que incentive os alunos a praticarem leitura e escrita, tomando a primeira como base essencial para a segunda, então pelo menos deveria haver um interesse para tentar diminuir essa deficiência histórica da maioria dos alunos brasileiros, que – parecendo imitar as autoridades do país – muitas vezes tratam com descaso os aspectos ligados à aquisição do conhecimento. Não é fácil convencê-los de que, não havendo exercício diário, não se chegará a lugar algum.  Razoável é, também, enfatizar que esse “esnobe” se estende a outros pilares das Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, como  Literatura, por exemplo, essencial para o entendimento de mundo e que normalmente é preterida por grande parte dos vestibulandos.

                O paradoxo desses fatos é que grande parte dessa clientela almeja cursos extremamente concorridos: engenharias, arquitetura, odontologia, direito, enfermagem e até medicina; além disso, esquecem-se de que geralmente os pesos das universidades para a redação é maior do que 1. Uma boa redação é tudo que se precisa produzir para estar na lista dos possíveis aprovados nesses cursos. Um bom texto, contudo, não virá somente com o querer sem ação, sem prática, sem base na leitura geral que o ENEM tem exigido de seus candidatos a cada ano.


                Entende-se que o modelo de educação brasileira é ultrapassado desde seu início; é sabido, ainda, que as escolas em geral não oferecem suporte ideal para que as leituras (em suas diversas formas, verbais ou não verbais) sejam priorizadas e realizadas com satisfação e qualidade. Entretanto, não se concebe mais ter esses “fenômenos” como justificativa para não se buscar suprir essas lacunas, não preenchidas ao longo da trajetória escolar básica. Não se conserta um equívoco com outro. Se há um objetivo a ser alcançado, nesse caso o ingresso à universidade via ENEM, a redação – como todas as outras áreas – será decisiva nesse processo. Não existe um meio que a exclua do processo. Sem ela, sim, o candidato é que se exclui do processo. 

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