3 de jun de 2011

MAIS ALGUMAS QUESTÕES RESOLVIDAS - ACARI (03.06.2011)

Texto para as questões de 01, 02 e 03 (FUVEST)

Sou feliz pelos amigos que tenho. Um deles muito sofre pelo meu descuido com o vernáculo. Por alguns anos ele sistematicamente me enviava missivas eruditas com precisas informações sobre as regras da gramática, que eu não respeitava, e sobre a grafia correta dos vocábulos, que eu ignorava. Fi-lo sofrer pelo uso errado que fiz de uma palavra no último “Quarto de Badulaques”. Acontece que eu, acostumado a conversar com a gente das Minas Gerais, falei em “varreção” – do verbo “varrer”. De fato, tratava-se de um equívoco que, num vestibular, poderia me valer uma reprovação. Pois o meu amigo, paladino da língua portuguesa, se deu ao trabalho de fazer um xerox da página 827 do dicionário (...). O certo é “varrição”, e não “varreção”. Mas estou com medo de que os mineiros da roça façam troça de mim, porque nunca os ouvi falar de “varrição”. E se eles rirem de mim não vai me adiantar mostrar-lhes o xerox da página do dicionário (...) Porque para eles não é o dicionário que faz a língua. É o povo. E o povo, lá nas montanhas de Minas Gerais, fala “varreção”, quando não “barreção”. O que me deixa triste sobre esse amigo oculto é que nunca tenha dito nada sobre o que eu escrevo, se é bonito ou se é feio. Toma a minha sopa, não diz nada sobre ela, mas reclama sempre que o prato está rachado.
Rubem Alves http://rubemalves.uol.com.br/quartodebadulaques

01 Ao manifestar-se quanto ao que seja “correto” ou “incorreto” no uso da língua portuguesa, o autor revela sua preocupação em
a) atender ao padrão culto, em “fi-lo”, e ao registro informal, em “varrição”.
b) corrigir formas condenáveis, como no caso de “barreção”, em vez de “varreção”.
c) valer-se o tempo todo de um registro informal, de que é exemplo a expressão “missivas eruditas”.
d) ponderar sobre a validade de diferentes usos da língua, em diferentes contextos.
e) negar que costuma cometer deslizes quanto à grafia dos vocábulos.


02 O amigo é chamado de “paladino da língua portuguesa” porque
a) costuma escrever cartas em que aponta incorreções gramaticais do autor.
b) sofre com os constantes descuidos dos leitores de “Quarto de Badulaques”.
c) julga igualmente válidas todas as variedades da língua portuguesa.
d) comenta criteriosamente os conteúdos dos textos que o autor publica.
e) é tolerante com os equívocos que poderiam causar reprovação no vestibular.


03 “Toma a minha sopa, não diz nada sobre ela, mas reclama sempre que o prato está rachado.”
Considerada no contexto, essa frase indica, em sentido figurado, que, para o autor,
a) a forma e o conteúdo são indissociáveis em qualquer mensagem.
b) a forma é um acessório do conteúdo, que é o essencial.
c) o conteúdo prescinde de qualquer forma para se apresentar.
d) a forma perfeita é condição indispensável para o sentido exato do conteúdo.
e) o conteúdo é impreciso, se a forma apresenta alguma.,

01. RESPOSTA: "d". O autor reclama justamente pelo fato de o seu amigo ser rigoroso com algumas palavras escritas equivocamente, como o caso de "varreção". Ao dizer que não adiantaria mostrar a página do dicionário aos mineiros da roça, ele pretende defender que cada ambiente, cada situação, cada destinatário exigem tipos de linguagem diferentes. Questão de variação lingüística.

02. RESPOSTA: "a". A grosso modo, "paladino" é um tipo de defensor de um palácio, um soldado. Ao referir-se a seu amigo assim, o autor quer dizer que aquele se preocupa com a língua portuguesa de um modo extremista, defende-a incondicionalmente, "com unhas e dentes". E esta maneira de defender a nossa língua manifesta-se através das missivas (ou seja, cartas) enviadas ao autor.

03. RESPOSTA: "b". A "sopa" tomada pelo amigo representa o teor ou sentido dos textos (conteúdo), enquanto que o "prato" significa a estrutura gramatical (forma). No contexto em que é colocada, a frase quer dizer que o fato de existirem falhas na forma, não significa necessariamente prejuízo ao conteúdo. Aquela é um acessório importante, mas este é o principal, devendo - portanto - ser bem mais valorizado pela sua mensagem.

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