10 de set de 2011

PRESIDENTA OU PRESIDENTE: MAIS DO QUE UMA QUESTÃO LINGÜÍSTICA

Essa discussão nunca será puramente lingüística. Há - talvez muito mais do que imaginemos - outro interesse por trás de todo o debate "vocabular" que se intensificou após a posse de Dilma Rousseff. Por que que tanta gente se incomoda quando se ouve a palavra "presidenta"? É um erro de língua portuguesa, é um preciosismo gramatical ou apenas uma maneira de se afirmar ideologicamente?

Os dicionários de Língua Portuguesa sempre trouxeram variantes femininas para aqueles vocábulos teoricamente neutros. mestra, parenta, oficiala, presidenta. Estão todas registradas e isso por si só já seria suficiente para justificar o seu uso. Dois problemas, no entanto, reforçam a tese daqueles que se posicionam contra haver dois gêneros quando a terminação é neutra. O primeiro deles é que "estudante" e "tenente", por exemplo são usadas tanto para masculino quanto para o feminino, diferentemente das citadas acima e, por isso, o usuário do idioma tende a se confundir, já que não existe padronização.

A segunda questão, bem mais complexa e talvez a principal, diz respeito à posição assumida pelas mulheres nos últimos tempos. Nunca se havia questionado antes a palavra "presidenta", por mais que já fosse usada em atas de entidades representativas, no caso de uma mulher a presidir; embora a maioria dos gramáticos admitam a dupla possibilidade, Dilma Rousseff faz questão de que o "a" seja pronunciado em seus discursos e isso tem a intenção de afirmar a representatividade feminina no poder, fato que tem crescido na América Latina. Sem dúvida alguma, a atitude não é bem recebida por pessoas que não admitem a inevitável mudança de tempos.

Vejamos que as palavras como "soldada" enfrentam a resistência de muitos, ainda que estejam dicionarizadas. É que algumas funções nunca foram - de fato - exercidas pelas mulheres, por isso os substantivos que designam tais atribuições pareciam estar guardados, sem uso, esperando um momento certo para serem empregados. Parece que as ocasiões têm aparecido de maneira cada vez mais constante. Então, não há motivos para contraposições, a meu ver. As palavras existem, as mulheres passaram a desempenhar tais tarefas e não deveríamos perder tempo querendo reverter uma situação já superada.

Presidenta, sim. Soldada, sim. Coronela, sim. Não é somente a língua que se modifica. Simultaneamente vêm as transformações sociais. As mulheres têm ocupado postos historicamente masculinizados e isso - quer queira ou não - incide sobre os outros aspectos, notadamente a nossa língua. O debate sobre a forma correta da palavra decorre de um debate maior que deveria existir: o novo papel feminino na sociedade. Por isso, entendo que defender uma única forma para "presidente" seria retroceder, voltar a um tempo que não nos interessa. Como se pode ver, a discussão é muito mais ideógica do que lingüística e caminhar para frente exige que aprendamos novos vocábulos para designar os cargos protagonizados pela figura feminina.

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