26 de fev de 2011

TERMOS DA ORAÇÃO - MANEIRA DIFERENTE DE ANALISAR

Observe o texto abaixo, especialmente quanto aos termos grifados:

Um músico (1) me escreve contando que pertence a uma grande orquesta (2), mas não tem prazer no trabalho por causa dos colegas. Não suporta (3) o despotismo (3.1), a vaidade, a prepotência, a arrogância e a mania de grandeza de alguns. O convívio com “egos inflados” é demasiadamente penoso, e ele me pergunta o que fazer.

Eu, que sempre faço a apologia do ato generoso da escuta, sugiro ao músico que faça ouvidos moucos. Lembro que ele tem o privilégio de escutar os sons mais sutis e sabe ouvir o silêncio. Não precisa dar ouvidos ao que não interessa. Inclusive porque egos inflados estão em toda parte e a luta contra eles não leva (4) a nada (4,1). Evitar a luta de prestígio é um bem que nós fazemos a nós e aos outros.

Para viver (5), nem tudo nós podemos ver, escutar ou dizer. Isso é representado, desde a Antiguidade, pelos três macacos da sabedoria. Cada um cobre uma parte diferente do rosto com as mãos. O primeiro cobre os olhos, o segundo, as orelhas e o terceiro, a boca. A representação é (6) originária da China. Foi introduzida no Japão, no século VIII, por um monge budista. A máxima que ela implica é “não ver, não ouvir e não dizer nada de mau”. Foi adotada por Gandhi, que levava sempre consigo os três macaquinhos, o cego, o surdo e o mudo – Mizaru, Kikazaru e Iwazaru.

Eles ensinam a não enxergar tudo o que vemos, não escutar tudo o que ouvimos e não dizer tudo o que sabemos. Noutras palavras, ensinam a selecionar e a conter-se. Isso é decisivo para uma atitude construtiva, mas não é fácil. Somos impelidos a focalizar o que nos prejudica – impelidos por um gozo masoquista ao qual temos de nos opor continuamente. Só a consciência disso permite não sair do caminho (7) em que a vida desabrocha.

Seleção e contenção tornam a existência mais fácil. Desde que não sejam um efeito da repressão, como na educação tradicional (7.1), e sim do desejo do sujeito – um desejo vital de se opor às forças do inconsciente que podem nos fazer mal. Isso implica a humildade de aceitar (8) que o inconsciente existe e nós não somos donos de nós mesmos (8.1).

A ideia não é nova. Data da descoberta da psicanálise por Freud (9), no fim do século XIX, mas continua a ser ignorada porque é difícil nos livrarmos do ego. Sobretudo numa sociedade como a nossa, que tanto valoriza, e que não condena a vaidade, a prepotência, a arrogância. Pelo contrário, estimula-as para se perpetuar.

Observando os termos grifados acima, identificamos neles várias funções sintáticas aos termos da oração, como discriminação seguinte:


O termo 1 representa o referente textual, aquele sobre o qual se fala, ou seja, o sujeito da oração; o termo 2 representa o que se aborda a respeito desse sujeito, ou seja, trata-se do predicado, função que traz todas as informações sobre o referente; os termos 3 e 3.1 são, respectivamente, verbo e complemento, numa relação direta, sem preposição (suporta “o quê?/quem?), por isso temos VERBO TRANSITIVO DIRETO e OBJETO DIRETAMENTE, na ordem em que aparecem; igual relação, mas com preposição, ocorre entre os termos 4 e 4.1(leva “a quê?), casos de VERBO TRANSITIVO INDIRETO e OOBJETO INDIRETO; o termo de n.º 5 – viver – trata-se de uma forma verbal que não exige complemento, portanto, VERBO INTRANSITIVO, seu sentido independente de termos seguintes; o termo n.º 6 constitui VERBO DE LIGAÇÃO, com a função de ligar o sujeito “A representação” a seu predicativo “originária da China”; o termo n.º 7, “do caminho” indica “de onde” a consciência não permite sair, portanto atual com ADJUNTO ADVERBIAL; o termo 7.1 atua também como ADJUNTO ADVERBIAL, indicando uma relação de comparação; os termos 8 e 8.1 atuam como COMPLEMENTOS dos nomes “humildade” (de quê?) e “donos” (de quê?/de quem?); o último termo, “Por Freud” indica a realização de uma ação por parte de um elemento que não é sujeito, ou seja, constitui o AGENTE DA PASSIVA.

Portanto, os termos da oração não constituem meras funções sintáticas isoladas a serem estudadas tecnocraticamente, mas elementos essenciais para construir o sentido geral de qualquer texto.

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